segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Remember… essa é da época que PLAY era com o Jonas ainda, mas com certeza é a melhor crítica que já li. Resume exatamente o que é PLAY!

Play, de Rodrigo Nogueira (Cadernos de Teatro, 10)

Um triângulo amoroso subitamente abalado pela chegada de um quarto elemento: João, homem de negócios casado com a fria Ana, tem um caso com sua irmã, Cynthia, mais alternativa e sexual, até que chega do exterior Jonas, artista plástico e amigo de faculdade de João. Inspirado por Sexo, Mentiras e Videotape, de Steven Sodebergh.

Talvez o mais interessante da peça seja o fato de que nada, de fato, acontece. Tudo é de uma sutileza belíssima. O diálogo em que Ana e João discutem comprar ingressos para um concerto ao mesmo tempo em que, nas entrelinhas, discutem o futuro de seu casamento, é somente o ponto alto de uma contida tensão dramática que o texto desenvolve do começo ao fim. Sem lugares-comuns, graças a deus.  Sexo, Mentiras E Videotape

Daniela Galli está simplesmente dando um show, no papel de uma mulher fria, formal e mal-amada, e ao mesmo tempo, ansiosa por se reinventar e viver um grande amor. Rodrigo Nogueira, também autor da peça e dramaturgo de mão cheia, faz um João canalha, confuso e sedutor, provando também seus enormes talentos de ator. O personagem João, homem de negócios indeterminados, verbaliza todos os preconceitos de sua classe contra os artistas ("afinal, o que é uma instalação? não era mais fácil quando era só quadro e escultura?") e, ao mesmo tempo, a interpretação de Rodrigo também encarna todos os preconceitos e estereótipos dos artistas contra essas pessoas estranhas que trabalham de terno e gravata, das oito às seis, cinco dias por semana: um circuito fechado. Maria Maya e Jonas Gadelha (aliás, os produtores da peça) também estão muito bem, com papéis um pouco mais fáceis: ela é a irmã maluquete de Ana, metida a artista, desbocada, atirada; ele, o artista caladão.

O enredo avança num crescendo de tensão muito bem montado até o súbito clímax, que não parece clímax, e não resolve nem conclui praticamente nada, mas simboliza uma virada (sutil) na vida de Ana e, assim, é o fechamento perfeito de uma peça sutil onde quase nada de fato acontece.

Curiosamente, no bochicho pós-peça, só ouvi gente falando mal: uma velhinha pra outra, "quarenta reais... por isso!", e um outro sujeito, que a peça era "desconexa". E eu pensando: "caramba, não havia nada de desconexo nessa peça. Nem uma única linha a mais ou fora de lugar. Será que esse povo não entende sutileza?"

 

A trilha sonora de André Abujamra abre espaço até mesmo para o Bolero de Ravel, uma de minhas "músicas clássicas de comercial de xampu" preferidas. A diferença é que, em "Play", o Bolero não é tocado como se fosse uma música de fundo normal e desconhecida, mas sim como o próprio Bolero de Ravel e o fato de ser essa uma das músicas preferidas do personagem João faz parte do enredo.

Destaque especial para a economia cenográfica, onde duas mesas e meia dúzia de cadeiras são constantemente rearranjadas para simbolar novos ambientes, com magnífica eficiência cênica.

Adorei, e recomendo enfaticamente.

fonte: http://www.interney.net/blogs/lll/2009/06/02/play_de_rodrigo_nogueira_cadernos_de_tea_10/

Um comentário:

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